Roger Bacon


Falemos de um sujeito chamado Roger Bacon, que nasceu em 1214, em Ilchester, no condado de Somerset, na Inglaterra. Oriundo de uma família de posses, o que lhe permitiu ter uma educação de elite. Ele viria a morrer em 1292, em Oxford, Inglaterra.

Era conhecido pelo título de “Doctor Mirabilis” (Doutor Admirável) e foi uma das mentes mais fascinantes da Idade Média. Ele era um frade franciscano inglês, mas sua mente parecia estar séculos à frente de sua época, o que o colocou em sérios problemas com a Igreja.

Bacon é frequentemente apontado como um dos precursores do método científico. Antes dele, grande parte do conhecimento era baseada na autoridade. Se um filósofo antigo havia dito algo, então aquilo era aceito como verdade. Bacon foi contra essa lógica e afirmou que apenas a experimentação e a matemática poderiam provar a verdade.

Ele também defendia algo extremamente raro para o século XIII: que o conhecimento científico dependia do estudo da matemática e das línguas originais. Bacon criticava duramente os estudiosos que liam Aristóteles apenas através de traduções ruins do latim. Para ele, um verdadeiro estudioso deveria conhecer grego, hebraico e árabe, pois grande parte do conhecimento científico havia sido preservado e desenvolvido no mundo islâmico.

Sua obra principal, o Opus Majus, foi enviada ao Papa Clemente IV e continha propostas de reforma para todo o sistema de ensino da época. Era uma obra gigantesca que tratava de gramática, lógica, matemática, óptica, filosofia natural e até teologia, tudo organizado dentro de um mesmo projeto intelectual.


Bacon escreveu também o tratado chamado De Secretis Operibus Artis et Natura, em 1267. Nele, Bacon previu invenções que só surgiriam 500 ou 700 anos depois.

Ele previu os automóveis. Chamou-os de carruagens que se moveriam com rapidez incrível sem a ajuda de animais. Falou também das aeronaves, dizendo que seriam máquinas voadoras nas quais um homem se sentaria e giraria um mecanismo para bater asas artificiais. Falou ainda dos submarinos, descrevendo instrumentos que permitiriam caminhar no fundo dos oceanos sem perigo físico. E mencionou também pontes de suspensão, estruturas para cruzar rios sem colunas centrais. Tudo isso no século XIII.

Mas Bacon não era apenas um sonhador. Ele fez descobertas práticas para a ciência. No campo da ótica, estudou o reflexo e a refração da luz. Descreveu o funcionamento das lentes e é frequentemente creditado por ajudar a pavimentar o caminho para a invenção dos óculos.

Em alguns de seus textos, Bacon também sugeriu que lentes poderiam aproximar objetos distantes e ampliar objetos muito pequenos, uma ideia que antecipava o princípio dos telescópios e microscópios, que só seriam desenvolvidos plenamente séculos depois.


No campo militar, estudou a pólvora. Foi um dos primeiros europeus a descrever a fórmula da pólvora, embora tenha escrito em código (anagramas) para que o conhecimento não caísse em mãos erradas.

Até no calendário ele se envolveu. Bacon percebeu erros no calendário juliano e propôs uma reforma que só seria adotada séculos depois — o calendário gregoriano, que usamos hoje.

Como se pode imaginar, falar sobre máquinas voadoras e pólvora no século XIII era quase um convite para ser acusado de feitiçaria. Bacon passou muitos anos sob restrições ou detido por sua própria ordem religiosa, os franciscanos. Eles consideravam suas ideias “novidades suspeitas”. Muitos acreditavam que suas previsões tecnológicas eram fruto de magia negra, e não de lógica científica.

Roger Bacon não construiu o carro, mas ele deu à humanidade a permissão para imaginar que as leis da natureza poderiam ser dominadas pela mecânica. Sem a visão dele, inventores como Leonardo da Vinci talvez não tivessem encontrado o mesmo solo intelectual para florescer.


A visão de Roger Bacon sobre o “carro” não era a de um engenheiro desenhando peças, mas a de um filósofo profético, que entendia que a matemática e a mecânica poderiam superar a força muscular dos animais.

Ele falou sobre o conceito de autopropulsão. Bacon foi um dos primeiros a separar a ideia de movimento da ideia de tração animal. Na Idade Média, a única forma de mover algo pesado era com bois, cavalos ou escravos. Ele escreveu que “podem ser construídos carros que se movam com uma rapidez incrível (inestimabilis velocitas) sem o auxílio de qualquer animal”.


Ele não via o carro como uma carruagem adaptada, mas como uma máquina de guerra ou de transporte que possuiria sua própria força interna. Bacon não descreveu um motor a combustão (que ainda não existia), mas acreditava em duas possibilidades técnicas para fazer o carro andar.

A primeira seria a mecânica de engrenagens. Ele sugeriu que sistemas complexos de rodas e eixos poderiam multiplicar a força de tal forma que um único homem, operando uma manivela ou um dispositivo interno, pudesse mover uma estrutura grande.

A segunda possibilidade seria o uso do ar. Em alguns trechos, ele especulava sobre o uso de ar comprimido ou até de substâncias explosivas — lembrando que ele estudava a pólvora — para gerar impulso.

Ele imaginava velocidade e controle. Diferente das carroças de bois, que eram lentas e imprevisíveis, a visão de Bacon focava na precisão. Ele acreditava que essas máquinas seriam muito mais rápidas do que qualquer cavalo.

Também imaginava um sistema de direção manual, no qual o operador teria controle total sobre a trajetória, algo que as carruagens da época — dependentes da vontade do animal — não possuíam de forma perfeita.


O ponto mais interessante da visão de Bacon é que ele insistia que isso não era magia. Ele escreveu esses detalhes justamente para provar que a mente humana, através da Arte (tecnologia) e da Natureza (leis físicas), poderia realizar prodígios que muitas pessoas atribuíam a demônios ou feitiçaria.

Para ele, o carro era uma prova da superioridade do intelecto humano sobre a força bruta.

Mas algo ainda faltava em sua visão. Embora ele tivesse previsto o conceito — um veículo rápido, sem animais e controlado por um homem — Bacon não possuía o conhecimento da termodinâmica.

Ele não conseguia visualizar como converter calor em movimento, algo que Nicolas-Joseph Cugnot faria com o vapor cerca de 500 anos depois.

Assim, Roger Bacon imaginava o carro mais como um supermecanismo de relógio do que como uma máquina térmica. Mas foi o primeiro a tocar no assunto. 

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